Idade Maior

A vergonha das borlas

E de quem faz crítica gastronómica sem assumir os custo de cada refeição que avalia.


Ainda que com quase dois meses de atraso, venho agora cumprir o prometido e continuar a desenvolver os temas abordados por este polémico artigo do jornal Público, de Paulo Moura, sobre o qual já escrevi um primeiro e segundo comentário.

Deixo para breve (espero?) um quarto e último sobre a parte que refere a ?cozinha tradicional portuguesa?, Como sempre, não vou abordar declarações de outros intervenientes no artigo, já que temo que, tal como as minhas, também estejam desenquadradas, podendo induzir a erros de interpretação por parte dos leitores.

Uma das coisas que me lembro de ter frisado a Paulo Moura e que ele, com todo o direito que lhe assiste, preferiu não incluir, é que considero uma vergonha, repito, uma vergonha, que haja jornalistas ou críticos que visitem restaurantes, a convite destes ou por iniciativa própria, e não paguem a conta no final. É uma vergonha que haja responsáveis editoriais que aceitem esta situação (quando não a incentivam) e que haja donos e chefes de restaurantes que também a aceitem ou até promovam.

Uma coisa é convidar colectivamente a Imprensa para experimentar um novo restaurante ou nova carta, por exemplo, outra é ?comprar? artigos, na esmagadora maioria do caso favoráveis, em troca de refeições à borla.

Não por acaso, quase todos os jornalistas ou críticos que praticam este tipo de ?trabalho? custam muito pouco ou mesmo nada às publicações onde estão. É, torno a dizer, uma vergonha, que os jornais, por muitos limites orçamentais que tenham, pactuem com estas práticas, que não admitiriam noutras secções.

Trabalhar sem custos e nem sequer apresentar as facturas dos restaurantes ?criticados?, além de uma concorrência desleal a quem está honestamente no mundo da gastronomia, dá artigos completamente desinteressantes e ridículos, onde tudo é ?fantástico?, onde qualquer restaurante é ?uma catedral do bem comer? ou ?templo de sabores?, sem sequer qualquer reparo ou observação que possa indispor quem lhes deu de comer e beber à borla.

A culpa, como disse, é dos jornais que publicam este tipo de artigos e de responsáveis por restaurantes, às vezes com méritos, que parecem ficar deslumbrados por textos acríticos e onde apenas variam os adjectivos exaltantes da sua cozinha.

Com este tipo de ?crítica?, cada vez mais presente em Portugal, nunca irão evoluir e mesmo que lhes tragam alguns clientes numa primeira fase, este tipo de artigos afectam a existência de opiniões fundamentadas que lhes poderão dar uma reputação consolidada.

Não se julgue que estou a escrever isto por interesse próprio, já que neste momento estou fora do jornalismo (não renovei sequer a carteira profissional) e sem esperanças de a ele voltar, bastante satisfeito com o trabalho que desenvolvo para a Associação de Turismo de Lisboa no âmbito da gastronomia.

Por gosto, escrevo sobre restaurantes de vez em quando no Mesa Marcada e também estou bastante satisfeito com essa opção. Sobretudo quando vejo o que se passa na nossa Imprensa.