Idade Maior

Provar vinhos com prazer...

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Dentro da maçada que são geralmente as provas de vinho, que por mim deveriam estar reservadas para enólogos e para quem tem o dever profissional de as fazer, como o nosso Rui Falcão, as ?verticais? são uma excepção. Não só porque se pode comparar a evolução de determinados vinhos, como temos acesso a garrafas que há muito saíram do mercado e por vezes são quase impossíveis de encontrar.

Vem isto a propósito de uma prova vertical de vinhos durienses Dona Berta, o branco Rabigato, e um tinto que já variou entre Reserva, Reserva Especial e Grande Escolha, todos produzidos entre 2001 e 2009, que o produtor Hernâni Verdelho, coadjuvado pelo enólogo Virgílio Loureiro, promoveu no Solar do Vinho do Porto, em Lisboa.

Também me atraiu o local, onde já não ia há alguns anos e sabia renovado. Não tive tempo de ver com calma ao espaço, nem tampouco de ver a lista de vinhos que apresentam, mas fiquei com a impressão que está bem mais adequado ao prestígio do vinho que lhe dá nome. Fica para uma próxima visita, mais demorada. Gostei de ver que havia várias mesas ocupadas por turistas, que serão talvez os clientes preferenciais e a razão de ser da casa.

Voltando aos Dona Berta, nome por que era conhecida a mãe de Hernâni Verdelho, o produtor que, depois de trabalhar no sector financeiro em diversos países, decidiu há cerca de 15 anos recuperar a Quinta do Carrenho, em Freixo do Numão (Douro Superior, Vale do Côa) na sua família há várias gerações (vendiam vinho para a Borges), reconverteu vinhas, manteve outras ?pré-filoxéricas? e construiu uma adega ?sem megalomanias?, segundo diz, para apenas 50 mil garrafas, recorrendo aos serviços de um enólogo renomado, Virgílio Loureiro.

Uma das primeiras apostas foi criar em 2001 um branco com base numa casta da região, tradicionalmente usada em lote, a Rabigato, sem fermentação nem estágio em madeira, tudo em inox, como frisou Virgílio Loureiro, contrariando uma moda da época. A coisa correu tão bem que, ainda segundo o enólogo, em 2005 já se tinha expandido na região o cultivo da casta e começaram a surgir outros varietais dela. O Dona Berta Rabigato sempre teve a mesma composição e vinificação e as diferenças que se encontram de ano para ano devem-se exclusivamente às variações climáticas. Salvo o de 2001, como veremos adiante.

Sempre fui apreciador e cliente deste vinho e não podia perder a oportunidade de verificar a sua evolução. No entanto, uma longa prova, acompanhada de bolachinhas de água e sal, com cuspideiras, duas horas antes do Real Madrid x Barcelona, não era o que mais me apetecia. Qual não foi o meu alívio quando, ao chegar à sala do Solar do Vinho do Porto onde decorreu a prova, vi uma extensa mesa com vários pratos com petiscos. Nem tudo tinha grande aspecto, mas comparando com as malditas bolachinhas?

Foram então servindo, a bom ritmo, os nove brancos, e se o 2009 não tinha grande complexidade, o 2008 já estava melhor, o 2007 estranhamente oxidado, porque o 2006 estava perfeito, assim como o 2004 e o 2003. O 2005 um pouco abaixo, mas mesmo assim esplêndido. O 2002 também bastante oxidado e não muito agradável. E o 2001, o da estreia, quase castanho e intragável. Foi o que achei e pareceu-me ser a opinião maioritária de alguns dos ?craques? da crítica de vinhos que ali estavam.

Sobre o 2001, Virgílio Loureiro contaria uma história, que aqui transcrevo por me parecer exemplar de modéstia num mundo onde abundam as opiniões categóricas e infalíveis, onde provar vinhos se transformou numa espécie de ?ciência?. Na altura, ele e outros enólogos portugueses bem conhecidos participaram num seminário onde pontificava um ?guru? francês de que não guardei o nome. Ele garantiu que para se fazer um grande branco era essencial utilizar ácido ascórbico (não é o mesmo que Vitamina C?). Ele assim fez com o Dona Berta Rabigato 2001 e agora atribui o desastre ao tal ácido ascórbico. Tanto mais que, conta, dois anos depois encontrou o tal guru numa outra ocasião e ele garantia com a mesma certeza que para se fazer um grande branco nunca se deveria usar ácido ascórbico?

Vieram então os tintos Dona Berta Reserva (castas típicas da região, plantadas na sua maioria há 35 anos), de todos os anos entre 2008 e 2001, salvo os de 2007 e 2002, de que o produtor já não dispunha. O primeiro era um pouco óbvio, mas pareceu ter bom potencial de envelhecimento, os de 2005 e 2004 já eram óptimos e os de 2003 e 2001 estavam vinhos a sério, mostrando o que só a idade pode dar aos tintos.

Por fim, um tinto varietal de Tinto Cão de 2008, que não me impressionou, e um elegantíssimo, apesar da juventude da colheita, também de 2008, do Dona Berta Vinha Centenária (é das tais pré-filoxéricas?). As castas, que Hernâni Verdelho decidiu preservar em dois hectares, têm nomes deliciosos como Cornifesto, Bastardo, Casculho, Tourigo, Tinta Raiz? E há ainda outras na Quinta do Carrenho, como a Silveirinha, Donzelinho ou Folgazão?

Assim, uma prova que poderia ser uma estopada, foi um momento fantástico de demonstração das vantagens do envelhecimento tanto de tintos como brancos e de apreciação da originalidade e qualidade dos nossos vinhos. E cheguei a casa ainda a tempo de ver o futebol.
1 comentários
  • Nicole Francisco
    9 de Maio
    Uma refeição com um bom vinho faz toda a diferença.