Idade Maior

Um Reserva Especial do ano da canícula


Fui esta semana ao almoço de lançamento do Reserva Ferreirinha Especial 2003, no hotel Pestana Palace, em Lisboa. Gosto muito da atitude da Casa Ferreirinha-Sogrape de nos guardar as garrafas até acharem que estão prontas para ir para o mercado, com os custos que isso implica.

E continuarem a tradição do Barca Velha é algo que não tem preço num país com marcas muito recentes, às vezes com produtores que mais parecem saídos do Novo Mundo do que um país europeu onde o vinho é velho de milénios.

Mesmo assim, devo dizer que este Reserva Especial não é muito o meu tipo de vinho, um pouco pesado de mais, dominado, segundo o produtor, "por aromas a fruta vermelha bem madura", com mais de 14,5% de álcool, derivado das altíssimas temperaturas do Verão de 2003, cuja canícula e os incêndios ainda estão na nossa memória.

Isto apesar de o álcool estar bem integrado e, para equilibrar, se ter recorrido tanto a uvas das partes mais altas como das mais baixas da Quinta da Leda (na foto). Aliás, o produtor afirma que este vinho deve atingir o seu apogeu entre o 10º e o 15º ano e manterá a qualidade até 25 anos de idade.

Para quem o quiser abrir agora, talvez o melhor seja para acompanhar um prato do género do que foi servido no Pestana: naco de porco preto de bolota D.O com sauté com broa de milho e chouriço de Portalegre DOP. A cozinha esteve a cargo de Pedro Marques, chefe do hotel, que trabalhou em tempos com Aimé Barroyer, saiu, esteve no Hotel Miragem, em Cascais, e agora voltou ao Pestana.

O almoço não impressionou, mas também havia mais de 20 pessoas à mesa e mesmo no tempo de Barroyer havia uma grande diferença entre as refeições para grupos e as servidas no Valle-Flôr, restaurante do hotel.

Voltando ao Reserva Especial, que alterna com o Barca Velha, é a 14ª edição em 49 anos de existência da marca, sendo que o último datava de 2001.

No Clube 1500 da Sogrape, será vendido a 65 euros. Segundo o simpático e despretensioso enólogo da Casa Ferreirinha, Luís Sottomayor, não haverá Barca Velha nem em 2005 nem em 2006. O que parece deixar 2004 em aberto para o mais mítico tinto português.