Idade Maior

Infecção cancerígena

Através de um cocktail invulgar. Saiba como um cientista arriscou a vida para provar que a bactéria H. pylori é cancerígena e contagiosa.


Em 1984, em Perth, na Austrália, o Dr. Barry Marshall pôs-se de pé no seu laboratório de bata branca vestida. «Saúde!», exclamou antes de beber um copo cheio de uma mistura clara. Não era um cocktail normal. Eram 100 milhões de unidades de uma bactéria, a Helicobacter pylori (H. pylori). Marshall acreditava firmemente que a H. pylori causava gastrite, uma inflamação no revestimento do estômago, bem como úlceras estomacais e, possivelmente, cancro. No entanto, tinha visto frustradas todas as suas tentativas de convencer a classe médica, que continuava a acreditar que as úlceras eram causadas pelo stress e por factores alimentares.

«Estava nervoso. Afinal, estava a beber bactérias puras!», lembra Marshall. «Era como comer uma comida estranha, como um ovo cru ou um peixinho vermelho. Foi preciso alguma força de vontade para engolir aquilo.» Tal como tinha previsto, Marshall adoeceu com gastrite. Curou-se com antibióticos.

Dez anos mais tarde, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos aprovou os antibióticos como o tratamento standard para úlceras e a Organização Mundial de Saúde declarou a bactéria H. pylori como sendo cancerígena.

Antes de Marshall ter engolido a sua estranha beberagem, ninguém sabia como evitar o cancro do estômago. Agora, está-se a aprender. Aklavik, uma pequena comunidade de cerca de 600 almas nos Territórios do Noroeste, tem há anos uma taxa de incidência de cancro do estômago excepcionalmente elevada ? os homens desenvolvem-no três vezes mais do que a média nacional.

Billy Archie sempre se preocupou com a doença, e por isso, em 2004, quando se tornou autarca de Aklavik, decidiu agir. Pôs em funcionamento o Comité de Saúde de Aklavik, e em Fevereiro de 2008 uma equipa de 25 médicos, enfermeiros e pessoal de apoio voou para a localidade para lançar um estudo de longo prazo sobre a H. pylori.

Tal como acontece com outros agentes cancerígenos, as infecções por H. pylori não são muitas vezes detectadas. Os cientistas crêem que o contágio se faz através da ingestão de comida ou água contaminada ou por beijar alguém infectado. Um teste de respiração ou uma endoscopia podem revelar a presença da bactéria no organismo. Em Aklavik, mais de 200 pessoas acusaram positivo nos exames e foi-lhes oferecido tratamento com antibióticos.

Isto dá aos investigadores a perspectiva do quanto a infecção é comum nesta zona, mas deixa outras perguntas por responder. Por exemplo, quais são os medicamentos mais eficazes a longo prazo? Pode dar-se às pessoas a garantia de que, uma vez curadas, não voltam a ser infectadas? E os tratamentos terão algum efeito em pessoas com lesões gástricas pré-cancerígenas? Karen Goodman, epidemiologista e professora associada na Universidade de Alberta, assegura que serão necessários, pelo menos, 10 anos até termos as respostas ? respostas que vão ajudar a diminuir a incidência de cancro do estômago não só em Aklavik como no Canadá e no Mundo.

Por enquanto, Marshall gostaria de ver os testes à H. pylori tornarem-se rotina nos exames médicos. «Pode fazer análises aos 40 anos, altura em que se começa a vigiar mais de perto o colesterol e a tiróide», diz. O tratamento atempado com antibiótico deveria ser normal. Mais: com a detecção precoce e o tratamento da infecção por H. pylori, «nunca mais ninguém deveria ter cancro do estômago», sublinha.

Pelo seu trabalho, em 1996 Marshall recebeu no Canadá o Prémio Gairdner, e em 2005, o Prémio Nobel.

Por Claudia Cornwall www.seleccoes.pt


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