Idade Maior

O que aprendemos a partir dos animais?

Descobertas que ajudam no combate a algumas patologias humanas como o cancro da mama e os linfomas.


Continuação do artigo Infecções Silenciosas

Em 1911, o médico nova-iorquino Francis Peyton Rous provou que um agente infeccioso era o responsável por um misterioso cancro nas galinhas. O Dr. Rous removeu tecido infectado de uma ave e injectou-o noutra, provocando-lhe um tumor.  Investigadores descobriram também vírus causadores de cancro em coelhos, rãs e mesmo no raro diabo-da-tasmânia.

Descobertas como esta dão muitas vezes boas pistas sobre as patologias dos humanos. A detecção de vírus em galinhas, gatos, bovinos e primatas, associados à leucemia animal e linfomas, levou os investigadores a procurarem equivalentes que possam causar essas doenças em humanos.

Pesquisas em ratos podem um dia ajudar os cientistas a explicar a causa (ou causas) do cancro da mama nos humanos, que é a principal doença oncológica nas mulheres. Entre 5 e 10% dos casos de cancro da mama são hereditários, mas ninguém sabe ainda as causas para os outros 90 a 95%.

Em 1936, o médico norte-americano Dr. John Bittner provou que o cancro da mama em ratos é causado por um vírus, que agora é chamado «vírus do tumor mamário em ratos» (MMTV, na sigla em inglês). O Dr. James Holland, professor especializado em Oncologia na Escola de Medicina de Monte Sinai, em Nova Iorque, tem investigado o MMTV nos últimos quase 20 anos.  Provar que algo como o MMTV pode causar cancro da mama nas mulheres «tem sido uma batalha difícil», diz Holland, «mas hoje as pessoas opõem menos resistência à ideia».

Em meados dos anos 90, ao trabalhar com a sua colega Dra. Beatriz Pogo, Holland demonstrou que um vírus cuja sequência genética era mais do que 95% semelhante à do MMTV, estava presente em cerca de 40% dos tumores da mama nos Estados Unidos. Depois, em 1999, o Dr. Thomas Stewart, professor emérito de Medicina na Universidade de Ottawa, mapeou a distribuição do cancro da mama em todo o mundo. Comparou esta distribuição geográfica à do rato doméstico que é portador do MMTV. A sobreposição é quase perfeita. Onde o rato doméstico é comum, assim o é o cancro da mama. Nas zonas onde o rato não é comum (países  como o Vietname), o cancro da mama é raro.

No passado mês de Novembro, num estudo publicado na revista Advances in Tumour Virology (Descobertas na Virologia dos Tumores, numa tradução literal), Holland e os seus pares revelam que identificaram o elemento patogénico semelhante ao MMTV em 72% dos tumores inflamatórios da mama. Mas até agora só se atribui a culpa a posteriori e por associação: Holland sabe que este vírus se encontra em alguns cancros da mama, mas o que causa esses tumores? «Temos que provar que as mulheres são infectadas pelo vírus antes de desenvolverem cancro da mama», explica.

Numa tentativa de provar este ponto, o investigador está a planear estudar amostras de sangue de grupos de mulheres à procura de cancro da mama e monitorizar se, quando e onde o vírus aparece. Holland espera que isto ajude a estabelecer uma relação causal e torne possível o desenvolvimento de uma vacina.

A aposta é elevada: todos os anos, o cancro da mama mata cerca de meio milhão de mulheres em todo o mundo. «Se conseguirmos provar que é um vírus que está na origem deste cancro, isso irá mudar completamente o nosso paradigma», sublinha Holland.

Hans Krueger, co-autor do recente livro HPV and Other Infectious Agents in Cancer (HPV e Outros Agentes Infecciosos no Cancro, numa tradução literal), acredita que a pesquisa sobre o cancro e as infecções pode, potencialmente, salvar milhares de vidas. «Este campo é complexo», diz. «Mas a nossa compreensão dele está a aumentar quase diariamente.»

O que mais podemos «apanhar»?
Artrite: Há uma pequena percentagem de pessoas que desenvolvem artrite crónica através da salmonela, uma bactéria que pode causar intoxicação alimentar.

Esquizofrenia: Se tiver contraído gripe durante a primeira metade da gravidez, o seu bebé tem três vezes mais possibilidades de desenvolver esquizofrenia do que se não tiver tido gripe.

Transtorno obsessivo-compulsivo: Existem algumas provas de que a faringite causada por estreptococos em crianças muito pequenas pode conduzir ao início súbito do transtorno obsessivo-compulsivo. Esta teoria tem sido alvo de inúmeras pesquisas.

Por Claudia Cornwall www.seleccoes.pt

Leia aqui a primeira parte do artigo: Pode-se "apanhar" um cancro?