Idade Maior

A super avó

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Gracinda Gomes. Há 30 anos que é visita frequente nas prisões.


Decidiu, por isso, criar um grupo de jovens na Marinha Grande, sua terra natal. «Queria alertá-los. Queria que estivessem despertos para o problema e que espalhassem a palavra. Queria que me avisassem se algum amigo estivesse metido em sarilhos. Às vezes, ia ao parque, que era muito fechado e escuro, ver se os via. E quando os encontrava, metidos na droga, conversava com eles. Procurava chamá-los à razão.

E, no meio de uma boa ação, Gracinda tropeçou noutra. «Certo dia, uma destas jovens contou-me que tinha um amigo que estava preso e que ia visitá-lo, mas que lhe estava a custar ir sozinha. Fui com ela. Conversei com o rapaz. Vi outros rapazes, tão novos, ali fechados. E pronto. Nunca mais deixei de ir»

Quando diz isto assim, não é exagero. Não é força de expressão. A verdade é essa mesmo - nunca mais deixou de ir à Prisão Regional de Leiria. Levava coisas de que os jovens precisavam. Um miminho para cada um. Rapidamente ficou conhecida. Espalhou-se a notícia. Aquela senhora doce ia à cadeia visitar pessoas que não conhecia de lado nenhum. Como se fossem da família. «Todos queriam falar comigo. Todos espreitavam, curiosos.»

Certa vez, um detido falou-lhe num amigo que estava preso noutro estabelecimento e que muito beneficiaria com a sua visita. Incapaz de recusar, lá foi Gracinda à prisão-escola conhecer o rapaz. Gostou muito. Dele, dos outros, da forma entusiastica como fora recebida. Gostou tanto que passou a ir lá todos os dias. E aquela mulher-anjo passou a ser como que da família. «Eu brincava com eles, incentivava-os, ralhava um bocadinho quando era preciso ... Um dia, há um rapaz que se chega a mim e me diz que eu era muito parecida com a avó dele, que já tinha morrido. Eu sorri. E à despedida o tal moço pergunta se pode passar a tratar-me por avozinha. E eu disse: "Podes! Claro que podes." E assim foi.»

12 comentários
  • Filomena Gonçalves
    18 de Março
    Precisamos de uma sociedade com mais D. Gracindas, é de louvar a sua coragem, bem haja, gostaria de seguir o seu exemplo.
  • Edite Dias
    14 de Março
    Tive oportunidade de conhecer esta Sr.ª num casamento dos seus muitos netos, conheço a irmã Maria Gonçalves e admiro-vos muito. Nesta sociedade consumista e individualista, onde a luta por um lugar ao sol, deixou o vazio moral e uma aus~encia total de valores, são estas pessoas que ainda nos fazem acreditar que é possível reconstruirmos a sociedade. beijinhos às duas.
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