Idade Maior

A super avó

, 12 comentários

Gracinda Gomes. Há 30 anos que é visita frequente nas prisões.


Assim foi. Começou por um e estendeu-se a todos. Gracinda Gomes era a avozinha de todos os detidos que visitava. Tinha uma enorme família de netos, que viam nela a figura feminina que lhes faltava, com carinho e palavras sábias, colo e ralhetes, moral e desvelo. E garante que nunca foi mal recebida por nenhum dos meliantes. «Nunca, nunca, nunca!»

Os seus três filhos sempre apoiaram a mãe nestas visitas prisionais e no carinho oferecido a todos aos que vivem privados da liberdade. Todos sabiam que a mãe, viúva prematuramente, precisava de se ocupar. Sabiam do tamanho elástico do seu coração e da sua generosidade.

Até casar, em 1949, Gracinda trabalhava na fábrica da Manuel Pereira Roldão. «Marcava as ampolas das injeções, sabe? Aquelas de vidro? Marcava-as e limpava-as. O pai daquele que havia de ser seu futuro marido era motorista na empresa e o filho ajudava-o. Tinham a mesma idade e começaram a conversar. «Éramos só amigos. Um dia, ele acompanha-me a casa com outros colegas. E quando eu entro, o meu pai pergunta-me se eu ando a namorar. Eu, que não andava, respondi a verdade: não. Levei um estalo. O meu pai achava mesmo que lhe estava a mentir. Quando contei o sucedido ao meu amigo, ele riu-se e disse: "Bom, então, se temos a fama, vamos ter o proveito também." Começámos a namorar e casámos, ambos com 19 anos.» Viveram juntos mais de 30 anos.

Até que ele adoeceu. Esteve internado, mandaram-no para casa, não disseram o que se passava. Gracinda quis saber. Foi ter com o médico, sozinha, insistiu. Até que ouviu o que não estava preparada para ouvir: «O seu marido tem um ano de vida.»
Não contou a ninguém. Nem a ele, nem aos filhos, a ninguém. Guardou esse segredo e essa angústia para si. Ficou viúva um ano depois. E só há pouco tempo os filhos souberam que a mãe tivera de aguentar, sozinha, o peso daquela notícia.

12 comentários
  • Filomena Gonçalves
    18 de Março
    Precisamos de uma sociedade com mais D. Gracindas, é de louvar a sua coragem, bem haja, gostaria de seguir o seu exemplo.
  • Edite Dias
    14 de Março
    Tive oportunidade de conhecer esta Sr.ª num casamento dos seus muitos netos, conheço a irmã Maria Gonçalves e admiro-vos muito. Nesta sociedade consumista e individualista, onde a luta por um lugar ao sol, deixou o vazio moral e uma aus~encia total de valores, são estas pessoas que ainda nos fazem acreditar que é possível reconstruirmos a sociedade. beijinhos às duas.
  • ver mais comentários »