Idade Maior

A super avó

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Gracinda Gomes. Há 30 anos que é visita frequente nas prisões.


Da pequena casa na Damaia à moradia em Alvalade (hoje, sede da Comunidade Vida e Paz), passando pela quinta na Venda do Pinheiro ao terreno em Fátima doado por um benfeitor belga, tudo a D. Gracinda acompanhou, com a dedicação de quem nasceu para se dar aos outros. Muitas noites passou ao relento, a conversar com os que tinham o céu como teto, a dar-lhes uma sopa quente, a estender-lhes um cobertor.  Depois, voltava à Marinha Grande para visitar os «netos», sequiosos das suas palavras e do seu colo. Hoje, a idade já não lhe permite fazer um certo número de coisas. Portanto, fica-se entre a Marinha Grande, Fátima e Leiria. E ainda assim, sem Lisboa no percurso habitual, é vê-la de um lado para o outro, com a agenda cheia de visitas.

Os que saem em liberdade vão dando notícias. Há aqueles que refazem a vida, deixando para trás o crime, há aqueles que acabam por voltar à cadeia. Ela não se zanga com eles. Não está lá para isso. Encolhe os ombros, respira fundo e volta a tentar tudo de novo.

Das muitas histórias que tem para contar, recorda com especial carinho a do «neto» que encontrou no Porto. Estava ela em plena Avenida dos Aliados quando começou a ouvir ao longe: «Avozinha! Avozinha ... » Voltou-se, mas não viu ninguém. Mas a voz voltou à carga, mais próxima: «Avozinha! Avozinha!» Quando se voltou, viu um rapaz de braços no ar. «Mal dei por isso e já rodopiava ao colo dele. Foi uma festa. E então ele, de lágrimas nos olhos, disse-me: ''Avozinha, já sou quase advogado. Eu prometi-te e estou quase a cumprir." Fiquei contente, claro. Ele tinha-me dito que gostava de ser advogado e eu incentivei-o muito. Era um menino quando o encontrei na prisão-escola. Tinha uns 16 anos. Não sabia ler nem escrever e pôs-se a estudar. É bom quando dão a volta por cima. Quando isso não acontece ... eu continuo lá, sem julgar ninguém.»
12 comentários
  • Filomena Gonçalves
    18 de Março
    Precisamos de uma sociedade com mais D. Gracindas, é de louvar a sua coragem, bem haja, gostaria de seguir o seu exemplo.
  • Edite Dias
    14 de Março
    Tive oportunidade de conhecer esta Sr.ª num casamento dos seus muitos netos, conheço a irmã Maria Gonçalves e admiro-vos muito. Nesta sociedade consumista e individualista, onde a luta por um lugar ao sol, deixou o vazio moral e uma aus~encia total de valores, são estas pessoas que ainda nos fazem acreditar que é possível reconstruirmos a sociedade. beijinhos às duas.
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